Engraxate

Reflexões de um advogado

Não sei vocês, mas eu sempre tive um sonho, inusitado, mas um sonho.

Eu queria sentar-me numa daquelas bancas de engraxate e dar lustro nos meus sapatos.

Muito luxo! Eu costumava fazer isso sozinho em casa, comprava as latinhas de graxa, pegava as escovas de dentes velhas, e lá ia eu dar lustro nos sapatinhos velhos de guerra.

Até que não ficavam dos piores!

Mas o ritual de pegar um jornal e sentar-se na praça vendo o mundo, enquanto aquele diligente engraxate gastava muito tempo dedicando-se aos nossos preciosos pisantes, sim, este era o meu sonho.

Quando criança, acompanhando minha mãe e minha avó até a Rua 25 de Março para pegar ou levar os trabalhos de costura, passávamos pela Praça do Patriarca, na ponta do Viaduto do Chá, onde havia o ônibus da Colsan e uma fila interminável de assentos de engraxates, mas crianças não sentam ali.

A onda dos sapatos de tênis, de lona branca, não engraxáveis.

A falta de tempo, ou de dinheiro, para a lúdica parada, foi passando, foi passando.

Existe ainda o engraxate na praça?

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